Alucinação Real

08:00Drika Rili






Acordei repentinamente sentindo um incômodo muito grande na cabeça. Uma dor estranha, como se alguém houvesse me batido enquanto eu dormia. Mas não sentia nenhuma protuberância na pele ou início de inchaço, nem sangue. Virei-me para o canto e fechei os olhos, tentando pegar no sono novamente. Mas foi em vão, a dor parecia aumentar. Sentei-me na cama e tentei recordar se eu havia batido a cabeça durante o dia. Mas não, era certeza que não. Se caso eu tivesse machucado, teria sentido antes, não aconteceria no meio do silêncio da madrugada. Nada explicava aquela dor.


Levantei lentamente e acendi a luz. Ainda com a visão um pouco embaçada, fui ao banheiro para me olhar no espelho. Encarei-me por alguns instantes, procurando qualquer sinal de pancada que justificasse aquela dor insuportável. Mas nada. Não havia nada. Abaixei a cabeça, abri a torneira e lavei meu rosto. Esperando que, dessa forma, essa dor, ao menos, diminuísse. Olhei-me novamente no espelho, desta vez mais atento ainda para o local que doía. E enquanto eu o fitava no espelho, vi uma pequena gota de sangue escorrer por minha testa.

Abaixei a cabeça, lavei o rosto novamente e olhei outra vez para o espelho. Mais uma gota de sangue escorria. Peguei uma toalha de papel para limpar o sangue e a toquei lentamente no local da dor. Quando olhei para a toalha de papel, a vi limpa, molhada apenas pela água que ainda descia pelo meu rosto. Sem sangue. Fiquei pasmo e resolvi olhar-me no espelho mais uma vez. O sangramento já era abundante. Eu sentia o sangue molhar ainda mais meu rosto enquanto via essa mesma imagem no reflexo, mas, ao passar a mão no rosto, apenas água eu via. Gota alguma de sangue na mão ou na toalha.

Com o coração acelerado, saí do banheiro e fui em direção ao quarto de meu filho. Precisava que alguém me dissesse algo confortante para provar que eu não estava louco. Depois de acordá-lo, perguntei se ele notara algo de diferente em mim, no meu rosto, enfim, qualquer coisa que provasse que eu estava machucado. Ele sorriu e disse que não, que eu deveria estar enlouquecendo e deveria deixá-lo dormir porque ele havia brincado muito e estava exausto. Sorri também para ele e o deixei. Tive que fingir o sorriso, as coisas não estavam bem para mim. A dor aumentava. A dúvida também. Já não sabia o que fazer.

Fui à cozinha. Abri a geladeira, peguei gelo e coloquei onde doía. Momentaneamente a dor pareceu diminuir. Assim sendo, retornei ao banheiro esperando não ver nada de estranho em meu reflexo nessa vez. Com o gelo ainda na testa, olhei-me no espelho. Tudo normal. Respirei aliviado, olhando para o teto como se agradecesse a Deus. Mas minha surpresa foi ainda maior quando, ao tornar a olhar para o espelho, vi meu rosto todo ensanguentado, assim como minhas mãos e a bolsa de gelo que eu achava ter aliviado meu sofrimento. Joguei a bolsa na parede e, com raiva, bati com força minha cabeça no espelho várias vezes. Os cacos caíam ao meu redor, todos cheios de sangue, dessa vez, real.

Inevitavelmente também caí. Sobre a imensa quantidade de pedaços do espelho que eu quebrara, ainda tive tempo de passar a mão no rosto uma última vez e poder ver que eu realmente (e abundantemente) sangrava. E com o passar dos minutos, desmaiei. Após acordar, já numa cama de hospital, ouvia comentários sobre “o paciente suicida”. Eles achavam que eu tentava me matar. Mas não foi isso que mais me impressionou. O que eu mais estranhei foi quando me falaram que haviam me resgatado no banheiro de casa inconsciente e com ferimentos profundos na cabeça, mas que não fora, em parte alguma do banheiro, encontrada uma única mancha de sangue.

Enviado por: Edimar Silva

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